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Agro

Sergipe testa bactéria que corta 75% da ureia no milho

Tecnologia desenvolvida no estado avança para testes maiores em 2027 e ainda depende de registro no Ministério da Agricultura.

Publicado em · Atualizado em · 7 min de leitura
Sergipe testa bactéria que corta 75% da ureia no milho
Foto: Paul R. Burley / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Resumo da notícia

  • Tecnologia sergipana usa microrganismos da natureza para diminuir a adubação nitrogenada no milho.
  • Experimentos indicaram redução de até 75% na ureia, sem perda de vigor das plantas.
  • A próxima fase prevê testes com produtores parceiros na safra de 2027, antes de eventual registro oficial.
  • A pesquisa ganha peso em um estado que também voltou a produzir ureia em escala industrial.

Produtores de milho em Sergipe poderão testar, na safra de 2027, uma tecnologia criada no estado que usa bactérias naturais para diminuir a dependência de ureia nas lavouras. Nos ensaios já realizados, o corte chegou a 75%.

O que a bactéria faz no milho

O estudo é tocado pelo engenheiro agrônomo e doutorando Walisson Vieira, da BiotechSe Biotecnologia Agroindustrial, dentro do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da Rede Nordeste de Biotecnologia, sob orientação do professor Paulo Roberto Gagliardi. A ideia é usar microrganismos capazes de captar o nitrogênio do ar, fixá-lo e entregá-lo à planta.

De acordo com o pesquisador, uma dose de 100 quilos de ureia pode cair para 25 quilos quando o microrganismo escolhido entra em aplicação. Ele diz que essa mudança pode gerar economia acima de 15% nos custos levados em conta na produção do milho.

Walisson calcula ainda que, quando virar produto, o bioinsumo poderá responder por cerca de 10% do custo de uma adubação convencional com ureia. A estimativa ainda integra o desenvolvimento da tecnologia e não corresponde a um preço de mercado definido.

De onde vieram os microrganismos

A tecnologia começou a partir da biodiversidade sergipana, com coletas em Estância e Aracaju, principalmente em ambientes de restinga no litoral. Os cientistas isolaram cerca de 300 microrganismos e, após várias etapas de seleção, chegaram a quatro classificados como elite.

Antes de seguir adiante, cada microrganismo passa por análises para identificar possível caráter patogênico ou fitopatogênico. Em seguida, os pesquisadores observam fixação biológica de nitrogênio, produção de fitormônios e liberação de nutrientes como fósforo e potássio.

Uma das bactérias escolhidas chamou atenção depois do sequenciamento. Segundo Walisson, surgiu a hipótese de ser uma nova espécie, e foi esse microrganismo que teve o melhor resultado nos testes iniciais.

Onde a pesquisa já avançou

Antes de chegar ao campo, a tecnologia passou por testes em casa de vegetação. As bactérias foram inoculadas em plantas cultivadas em vasos, para que os pesquisadores observassem os efeitos sobre o desenvolvimento vegetal.

Depois dessa etapa, o estudo avançou para a lavoura e já está no segundo ano seguido de testes. Parte dos trabalhos acontece em Nossa Senhora da Glória, no Campus do Sertão da Universidade Federal de Sergipe, em cooperação com pesquisadores que atuam com a cultura do milho.

Nos resultados apresentados por Walisson, as plantas tratadas formaram raízes maiores. O ponto é considerado importante porque um sistema radicular mais desenvolvido amplia a capacidade da planta de buscar água e nutrientes no solo.

Mesmo com a redução da adubação nitrogenada, as plantas mantiveram vigor e coloração. Esse foi um dos sinais usados para sustentar a avaliação de potencial da tecnologia até aqui.

Como o uso deve ocorrer no campo

Uma das maneiras de aplicação é inocular a bactéria diretamente na semente. Depois, quando o milho chega ao estágio V4, com quatro folhas verdadeiras, o microrganismo também é aplicado nas folhas.

A expectativa é levar a tecnologia a uma escala maior e aproximá-la das condições reais das propriedades rurais. A equipe pretende atuar com produtores parceiros na safra de 2027, possivelmente a partir de março.

Isso não quer dizer oferta comercial imediata. Após as fases de desenvolvimento e validação, o inoculante ainda terá de cumprir o processo regulatório e obter registro no Ministério da Agricultura e Pecuária para chegar ao mercado.

Por que reduzir a ureia pesa no bolso

A pesquisa tem efeito econômico porque o Brasil importa hoje cerca de 85% dos fertilizantes que usa, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária. Soja, milho e cana-de-açúcar, juntos, representam mais de 73% do consumo nacional desses insumos.

Essa dependência ganhou mais peso depois do início da guerra entre Rússia e Ucrânia, em 2022. A concentração das compras em poucos mercados expõe o agronegócio a variações de preços, oferta de matéria-prima, fretes e problemas logísticos.

Na avaliação do pesquisador, uma tecnologia que reduza a quantidade de fertilizante por hectare pode aliviar despesas e diminuir a exposição da agricultura brasileira às oscilações do mercado internacional.

Como o clima afetou o milho em Sergipe

O trabalho avança em um momento difícil para o milho no estado. Depois do desempenho obtido na safra anterior, a irregularidade das chuvas prejudicou as plantações em 2026.

Os efeitos começaram a ficar mais claros no fim de maio. Nos levantamentos seguintes, a Companhia Nacional de Abastecimento passou a registrar os impactos dos veranicos sobre as áreas produtoras, sobretudo no semiárido.

No encerramento da safra 2025/26, divulgado em setembro, a produção total de grãos de Sergipe foi estimada em 864,8 mil toneladas, ante 1,31 milhão de toneladas na temporada anterior. No milho da terceira safra, o rendimento recuou cerca de 35%.

Em pontos específicos do Alto Sertão, a situação foi mais grave. Em Santa Rosa do Ermírio, povoado de Poço Redondo, produtores relataram perdas próximas de 90% nas lavouras locais de milho, com impacto também sobre a silagem usada na alimentação do rebanho.

Os percentuais dizem respeito a situações distintas, uma ligada ao rendimento estadual e outra a relatos de uma área específica. Isso mostra que o efeito da seca não foi igual em todo o território sergipano.

Fafen retoma a ureia em Sergipe

Há também uma particularidade econômica no estado. Enquanto pesquisadores trabalham para reduzir a ureia necessária nas lavouras, Sergipe voltou a produzir o fertilizante em grande escala.

A Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados de Sergipe, em Laranjeiras, retomou a produção de amônia em 31 de dezembro de 2025 e começou a fabricar ureia em 3 de janeiro de 2026. A unidade tem capacidade para produzir 1.800 toneladas de ureia por dia, volume equivalente a aproximadamente 7% do mercado brasileiro.

A Petrobras fez investimento inicial de R$ 38 milhões para a retomada da fábrica. Na prática, isso recoloca a cadeia industrial de fertilizantes no centro da discussão sobre custo, oferta e dependência externa no estado.

Qual é a próxima etapa da pesquisa

A meta de longo prazo é ousada: alcançar uma tecnologia capaz de substituir totalmente a adubação nitrogenada em certas condições, tomando como referência a experiência brasileira com a soja. No milho sergipano, porém, a pesquisa ainda não chegou a esse ponto.

O resultado apresentado até aqui é experimental e aponta potencial de redução de 75%, mas ainda depende das próximas fases de validação. Só depois disso será possível avançar para o registro e para um eventual uso comercial.

Enquanto isso, a equipe continua ampliando a base de testes para verificar se o desempenho observado em casa de vegetação e nas primeiras áreas de campo se mantém em escala maior.

Perguntas frequentes

Quando os produtores devem testar a tecnologia?
A previsão é para a safra de 2027, com possível início em março, em parceria com produtores.

O produto já será vendido no próximo ano?
Não. Antes da comercialização, a tecnologia precisa passar por validação e pelo registro no Ministério da Agricultura e Pecuária.

Quanto a ureia pode cair no manejo?
Nos testes, a aplicação pode sair de 100 quilos para 25 quilos por área, segundo o pesquisador.

Essa bactéria já substitui todo o adubo nitrogenado?
Ainda não. O resultado atual é experimental e mostra potencial de redução, não substituição integral nas condições testadas.

Como a bactéria é aplicada na lavoura?
Uma das formas é inocular o microrganismo na semente e, depois, aplicar nas folhas quando a planta chega ao estágio V4.

Por que a pesquisa interessa ao agro?
Porque a ureia é um insumo sensível a preço, oferta e logística, e uma redução no uso pode influenciar custo de produção e planejamento das compras.

O estudo já saiu do laboratório?
Sim. Depois da fase em casa de vegetação, a pesquisa avançou para o campo e está no segundo ano consecutivo de testes.

Perguntas frequentes

Quando os produtores devem testar a tecnologia?

A previsão é para a safra de 2027, com possível início em março, em parceria com produtores.

O produto já será vendido no próximo ano?

Não. Antes da comercialização, a tecnologia precisa passar por validação e pelo registro no Ministério da Agricultura e Pecuária.

Quanto a ureia pode cair no manejo?

Nos testes, a aplicação pode sair de 100 quilos para 25 quilos por área, segundo o pesquisador.

Essa bactéria já substitui todo o adubo nitrogenado?

Ainda não. O resultado atual é experimental e mostra potencial de redução, não substituição integral nas condições testadas.

Como a bactéria é aplicada na lavoura?

Uma das formas é inocular o microrganismo na semente e, depois, aplicar nas folhas quando a planta chega ao estágio V4.

Por que a pesquisa interessa ao agro?

Porque a ureia é um insumo sensível a preço, oferta e logística, e uma redução no uso pode influenciar custo de produção e planejamento das compras.

O estudo já saiu do laboratório?

Sim. Depois da fase em casa de vegetação, a pesquisa avançou para o campo e está no segundo ano consecutivo de testes.

Com informações de Só Sergipe.

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