Goiás revoga PPP do esgoto e 148 de 216 municípios ficam sem rede
O governo estadual terá de refazer a concessão do esgoto, enquanto a cobertura segue travada sobretudo no interior.
Resumo da notícia
- A PPP do esgoto foi revogada e a nova licitação ficou para o primeiro trimestre de 2027.
- A maior parte dos municípios do projeto não tem sistema coletivo, e a população usa fossas.
- A Saneago diz que atende 75,57% da população com esgoto e 98,35% com água tratada.
- O tema afeta obras, planejamento urbano e contratos em cidades menores e na Região Metropolitana de Goiânia.
O governo de Goiás começa o novo ciclo político com a licitação da parceria público privada do esgoto revogada e uma nova disputa contratual prevista para o primeiro trimestre de 2027. A mudança atinge diretamente municípios goianos que ainda dependem de fossas e amplia a pressão sobre a meta de universalização.
O que foi revogado e o que acontece agora
A licitação anterior previa uma concessão de longo prazo para ampliar coleta e tratamento em 216 municípios, divididos em três blocos regionais. O edital havia sido publicado pela Saneago em dezembro de 2025, mas o leilão marcado para março deste ano não levou à contratação. Em agosto, a companhia revogou o processo para reformular o desenho da parceria.
Na prática, o governo terá de reabrir a disputa com outro modelo, sem perder de vista o prazo nacional que vale para o setor. O Marco Legal do Saneamento estabelece a meta de cobertura de 90% de coleta e tratamento até 2033, o que obriga o Estado a acelerar decisões se quiser evitar novo atraso no calendário de obras.
Onde está o maior déficit em Goiás
O problema é mais grave nos municípios pequenos. Planos microrregionais elaborados pela Secretaria de Estado da Infraestrutura e pela Saneago em 2025 apontam que 148 dos 216 municípios do projeto não contam com sistema coletivo de esgotamento sanitário. Nesses locais, a população recorre a fossas, solução que não resolve a demanda de expansão urbana nem reduz sozinha os riscos ambientais ligados ao descarte irregular.
Entre os municípios que já têm sistema, apenas 35 registram cobertura urbana de rede coletora acima de 60%, segundo os mesmos planos. Isso mostra que a existência de rede não significa atendimento amplo. Em boa parte do interior, a infraestrutura ainda cobre fatias limitadas da população e depende de novas obras para avançar.
Qual é a situação da Saneago hoje
A Saneago informou que o atendimento com esgotamento sanitário chegou a 75,57% da população e o de água tratada a 98,35%. A companhia disse também que mais de 1,3 milhão de pessoas passaram a contar com esgotamento sanitário desde 2019, e que o investimento em sistemas de água e esgoto entre 2021 e 2025 somou R$2,8 bilhões.
Esses números ajudam a explicar a distância entre os indicadores de água e esgoto. A empresa opera em 223 dos 246 municípios goianos, o que mostra capilaridade alta no abastecimento, mas ainda insuficiente para equalizar a rede de coleta em todo o território. O desafio deixa de ser apenas técnico e passa a envolver capacidade de investimento, coordenação com prefeituras e priorização territorial.
O que diz a leitura técnica sobre o interior
Para o urbanista e ambientalista Fred Le Blue, do coletivo Goiânia 2030, o Estado e as prefeituras precisam tomar decisões urgentes para tornar viável a meta de 90% em 2033. Ele defende mais recursos nos municípios mais carentes, integração entre saneamento e planejamento urbano, fortalecimento técnico das prefeituras, critérios de prioridade social e ambiental e mais transparência no acompanhamento das metas.
Segundo Fred, a diferença entre a capital e o interior está ligada à concentração histórica de investimentos e à maior capacidade de pressão institucional, política e midiática das grandes cidades. Nos municípios menores, onde essa pressão é menor, ele afirma que as políticas precisam considerar as características de cada território, em vez de repetir a mesma solução em todos os lugares.
Por que a rede coletiva nem sempre fecha a conta
Fred também afirma que a baixa densidade populacional e o alto custo por ligação tornam os sistemas convencionais menos viáveis em muitos municípios. Nessa avaliação, pequenas sedes urbanas, distritos, comunidades rurais e áreas isoladas podem se beneficiar de soluções descentralizadas e baseadas na natureza, inclusive de forma complementar às redes tradicionais.
O ponto central, segundo ele, é combinar tecnologia com realidade local. Em áreas dispersas, a obra de rede extensa pode custar mais e demorar mais para gerar resultado. Já modelos alternativos podem reduzir complexidade de implantação e operação, o que interessa especialmente a cidades com pouca escala populacional e orçamento apertado.
Qual o impacto para empresas e prefeituras
A reformulação da licitação mexe com o ambiente de negócios no setor de saneamento, engenharia e serviços urbanos. Uma concessão desse porte exige planejamento de obra, fornecimento de materiais, contratação de mão de obra especializada e coordenação com administrações municipais. Quando o cronograma é revisto, toda essa cadeia precisa esperar novo edital, novos lotes e novas exigências técnicas.
O efeito também aparece nas cidades que crescem sem infraestrutura. Fred aponta que loteamentos e ocupações irregulares na Região Metropolitana de Goiânia nem sempre são acompanhados por redes de esgoto, água e drenagem. Quando a expansão urbana ocorre sem estudo técnico e ambiental, o custo da infraestrutura sobe e o problema tende a ser repassado à sociedade, com impacto sobre rios, córregos, saúde pública e qualidade de vida.
Para empresários da construção, da incorporação imobiliária e de atividades que dependem de licenciamento urbano, o recado é objetivo: sem rede adequada, o ritmo de novos empreendimentos pode ficar condicionado ao avanço das obras públicas e à capacidade dos municípios de planejar a expansão. Em paralelo, o próprio poder público passa a enfrentar mais pressão por drenagem, manutenção viária e controle ambiental.
Como Goiás aparece no mapa nacional
No país, cerca de 90 milhões de pessoas não têm coleta de esgoto, o que representa 43,3% da população, segundo o Instituto Trata Brasil com base em dados do Ministério das Cidades. O mesmo levantamento indica que 51,8% do esgoto gerado no Brasil é tratado. Nesse quadro, Goiás aparece em posição melhor que a média em alguns centros urbanos, mas ainda distante da universalização fora das cidades maiores.
O Ranking do Saneamento 2026, do Instituto Trata Brasil, coloca Goiânia em sexto lugar entre os 100 municípios mais populosos do país e Aparecida de Goiânia em oitavo. A capital também está entre as sete capitais com mais de 90% de coleta de esgoto. O contraste com o interior evidencia que o desafio estadual não é uniforme e exige soluções diferentes para realidades diferentes.
O que o plano de governo sinaliza
O plano de governo de Daniel Vilela trata o saneamento dentro do eixo Infraestrutura, Território e Sustentabilidade. O documento menciona investimentos em coleta e tratamento de esgoto, abastecimento de água, segurança hídrica urbana e um programa voltado a obras de esgoto, drenagem e resíduos. A presença do tema no plano indica prioridade política, mas a execução agora depende da nova modelagem da concessão.
Fred avalia que o saneamento precisa ser articulado aos planos diretores municipais e ao planejamento das três microrregiões de saneamento. Segundo ele, muitos municípios não têm equipe técnica e recursos humanos suficientes para acompanhar a velocidade da expansão urbana, o que faz o plano virar uma carta de intenções com pouca aplicação concreta. Na avaliação do urbanista, a universalização só avança com integração entre planejamento urbano, investimento, fiscalização e capacidade técnica local.
O que muda para os próximos meses
O próximo passo oficial é a preparação de uma nova licitação no início de 2027. Até lá, o Estado terá de reavaliar o desenho dos blocos regionais, a atratividade econômica da concessão e a distribuição das obras entre municípios com perfis muito diferentes. A discussão deve envolver também os governos locais, que precisam alinhar uso do solo, expansão urbana e soluções de esgoto compatíveis com cada território.
Enquanto isso, a meta de cobertura segue correndo contra o relógio. Quanto mais o cronograma demora, mais difícil fica reduzir o déficit nas cidades menores e nas áreas em expansão. Em Goiás, o saneamento deixou de ser apenas uma obra de infraestrutura e passou a depender de decisão política, engenharia financeira e coordenação municipal.
Perguntas frequentes
O que aconteceu com a PPP do esgoto em Goiás?
A licitação foi revogada pela Saneago depois de não resultar em contratação no leilão previsto. O governo prepara uma nova disputa para 2027.
Quantos municípios estão no projeto?
O projeto envolve 216 municípios, organizados em três blocos regionais. A maior parte deles ainda não tem sistema coletivo.
Quem sente mais o atraso?
Os municípios menores e as áreas fora dos grandes centros. Nesses locais, a população ainda depende de fossas e há menos capacidade técnica para ampliar a rede.
Como a situação afeta empresas?
Ela interfere em contratos de obras, planejamento imobiliário e serviços urbanos. Sem rede e cronograma definidos, empreendimentos e fornecedores ficam mais dependentes do ritmo das decisões públicas.
Goiânia está no mesmo patamar do interior?
Não. A capital aparece entre as cidades brasileiras com melhor cobertura, enquanto o déficit se concentra fora dela.
Qual é a meta do setor até 2033?
O marco legal do saneamento prevê cobertura de 90% para coleta e tratamento de esgoto. A água tratada deve chegar a 99%.
Perguntas frequentes
O que aconteceu com a PPP do esgoto em Goiás?
A licitação foi revogada pela Saneago depois de não resultar em contratação no leilão previsto. O governo prepara uma nova disputa para 2027.
Quantos municípios estão no projeto?
O projeto envolve 216 municípios, organizados em três blocos regionais. A maior parte deles ainda não tem sistema coletivo.
Quem sente mais o atraso?
Os municípios menores e as áreas fora dos grandes centros. Nesses locais, a população ainda depende de fossas e há menos capacidade técnica para ampliar a rede.
Como a situação afeta empresas?
Ela interfere em contratos de obras, planejamento imobiliário e serviços urbanos. Sem rede e cronograma definidos, empreendimentos e fornecedores ficam mais dependentes do ritmo das decisões públicas.
Qual é a meta do setor até 2033?
O marco legal do saneamento prevê cobertura de 90% para coleta e tratamento de esgoto. A água tratada deve chegar a 99%.
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